quarta-feira, 29 de abril de 2009

I

Há uma cousa que não se vê, e por isso não é uma cousa.
Morrer é fechar os olhos.
A morte é cheia de verdades e vazia de realidades.

Quando eu ficava doente, pensava.
Mas era natural que pensasse,
Porque a maior doença é pensar.

Quando eu pensava demais, saía de dentro de casa
E escrevia versos deitado na grama
E ficava feliz quando cheirava uma flor e esquecia de tudo isso.

Estar morto é diferente.
Estar morto é só pensar, mas sem ter a grama para curar-se.
E se morto eu esquecer de pensar,
Fico mais longe ainda das cousas,
e mais triste das idéias.

Eu aqui estou sempre doente,
Porque sei que as cousas estão lá na natureza
Mesmo quando não as vejo.

Antes eu podia só ver, e pensava sobre não pensar,
E agora ver é tudo o que não posso,
E tudo o que penso é uma lembrança do que antes eu via sem lembrar.

Se aqui eu tivesse olhos, veria.
Como não os tenho, choro.

Porque tudo o que eu queria agora
era apenas não existir.

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