Lembro-me com saudades daquele dia
Em que li um livro de um filósofo da França
Que meu tio professor esqueceu em casa.
Como era bobo aquele homem
Que achava mais fácil provar que Deus era uma cousa
Do que ter certeza que as cousas todas não eram um sonho.
Eu lembro-me de rir de tudo aquilo como uma criança,
Porque rir daquilo é natural quando se é criança.
E hoje eu vi passar aquele filósofo pelo caminho do Céu
Procurando Deus para conversar sobre seus pensamentos.
Que pena me deu vê-lo andando para lá e para cá
Perguntando a todos os santos onde estava Deus
Sem conseguir uma resposta.
Pois a única coisa que os homens queriam
Quando chegassem ao Céu era ver Deus,
Do mesmo jeito que quando vivos eles viam as flores, as pedras e os montes.
Por isso que os homens acreditavam em Deus sem vê-lo,
Como os filósofos acreditavam naquela cousa que não se vê nas cousas.
E me pus a pensar como é triste que os homens
Precisam morrer para descobrir a verdade
Que quando vivos não encontraram,
E que isso faz com que, para os vivos,
Nenhuma verdade faça sentido,
E que o grande sentido de viver não é descobrir
As verdade escondidas das cousas,
Mas olhar para cada cousa
Sem pensar nas suas verdades.
E eu descubro isso e me sinto triste como um homem vivo
Porque aqui eu não tenho as cousas,
Mas tão somente essas verdades menores,
sem cheiro e sem cor.
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