Em uma das discussões que se vê diante da problemática, se é que podemos denominar assim, ao nos depararmos com as relações entre literatura e hipertexto, está presente e se torna atual no texto de Walter Benjamin, "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica" (1955), em que podemos nos colocar em xeque ao tratarmos da arte como manifestação de alto valor estético diante do que nos é configurado pelo autor ao tratar da fotografia e do cinema. Isso nos leva a refletir, em se tratando das tendências atuais, sobre como observar a obra de arte digital como procedimento ritual. Pois bem. Se considerarmos o processo ritual como sendo um procedimento de copiagem e transmissão a envolver um número cada vez maior de artistas, por assim dizer, a obra de arte digital vem a corroborar o fato de que este objeto artístico atinge ou atingirá cada vez mais e mais pessoas com acesso a essas manifestações. Logo, podemos entender que a era digital vem ao mesmo tempo em que dissemina e "descentraliza" a obra de arte, também a coloca sob a condição de submissão no sentido em que se trata de um meio vulnerável e que questiona o próprio valor do culto ou do valor estético. O procedimento ritual estará sempre presente e evoluindo a medida em que a sociedade e os conceitos também vão se modificando, seja para o bem da obra em si ou para sua ruína, embora mesmo "a voz de autoridade" sobre o que é ou não obra de arte é sempre questionável. Enquanto essas questões ficam nos colocando diante de mais indagações que nos levarão a outras e mais outras, tentamos entender como e até onde a arte, sobretudo a literária, continua sendo objeto inacessível e perpassado por uma aura divina, cujo meio digital vem modificando nos últimos anos.
(By Drummond_9)
(By Drummond_9)

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ResponderExcluirComo observar a obra de arte digital como um procedimento ritual? Como organizar o valor da obra de arte na era digital?
ResponderExcluirO texto de Walter Benjamin propõe uma ruptura no modo tradicional de se observar a obra de arte diante das novas possibilidades decorrentes de sua reprodutibilidade técnica.
Dois pontos nos parecem fundamentais: a ubiquidade e a "massificação" da obra de arte no sentido de tornar democrático o acesso a mesma. O problema que emerge refere-se à questão da autenticidade da mesma uma vez que se perde sua unicidade.
A era digital com o surgimento e desenvolvimento de novas técnicas de reprodução potencializa as condições de reprodutibilidade e contribui para o esmaecimento, ou a destruição, da "aura" que confere o valor da obra e sua condição de sagrado.
Há de se notar que o acesso à reprodução da obra de arte continua a imputar ao indivíduo, utilizando um conceito de Bourdieu, uma "distância respeitosa", partindo-se do princípio de que a cópia situa-se no campo da "representação" do real.
..."tentamos entender como e até onde a arte, sobretudo a literária, continua sendo objeto inacessível e perpassado por uma aura divina, cujo meio digital vem modificando nos últimos anos."
ResponderExcluirConcordo com um meio digital democratizador, descentralizador e disseminador de cultura e arte.
Quando iniciei meus tímidos passos pelas veredas insondáveis da poesia, jamais imaginava os rumos que a arte poética viria a tomar. Minha alma em cinzas buscava, apenas, refúgio para suas dores no universo maravilhoso e nostálgico do sonho. Durante minha existência, eram os textos literários embargados, sim, de uma aura sagrada que jamais se acreditava poder ser modificada. Manusear as páginas de um livro muitas vezes já puído pelo tempo tinha algo de ritualístico e sedutor, como um transportar-se de uma semi-vida para a existência completa num plano ficcional em que as dores não cessavam de todo; ao contrário, tornavam-se divinas. Porém, hoje, mais de setenta anos após minha estada sobre a terra, percebo como tudo mudou...Me é irônico perceber, no entanto, que mesmo após décadas e décadas de suposta evolução, os homens continuam com as mesmas dores e os mesmos conflitos interiores a lhes abrasarem a alma como faziam comigo. E tudo o que almejo é que minha voz se dissemine, mesmo após minha morte, para que outros encontrem em minhas mágoas as suas próprias e, talvez, também, algum bálsamo que lhes alivie a dura pena de viver. Por isso, é-me profundamente prazeroso perceber como os meios a que hoje chamam "digitais" disseminam e democratizam minha obra. Embora por instrumentos diferentes daqueles que se usava em minha época, toda minha vida posta em versos, bem como a daqueles que me precederam e vieram depois de mim circula livremente pelas malhas da virtualidade, esperando ser contemplada, discutida, questionada... Perguntam-me, agora, se penso na possibilidade de meus textos perderem sua sacralidade? E eu lhes respondo: seu valor - se é que existe algum -, para mim, reside também em sua circulação. A isso me dediquei e nisso me apego. Que sejam lidos por todos, compreendidos por alguns, talvez respeitados por nenhum...porém que sejam lidos!!!!
ResponderExcluirEspanca16
A OBRA DE ARTE NA ERA DIGITAL
ResponderExcluirCom o advento da internet, aumenta, nos últimos anos, a preocupação com a esfera da autenticidade da obra de arte. A tentativa de valorar e reafirmar seus princípios fundados na tradição como condição primeira de perpetuá-la é seguida também do conceito de áurea. Essa atualização é permitida graças à evolução tecnológica que acompanha os grandes períodos históricos, possibilitando uma leitura mais perceptível da obra de arte, saindo do âmbito individual de apreciação ritualística para o âmbito coletivo e político. O seu fundamento teológico, de um valor de culto, passa a ter um valor de exposição.
No caso específico da literatura, a tentativa de fundi-la com a internet se torna, para muitos, uma obsessão. O uso de ferramentas digitais pode não somente divulgar os textos de forma linear, como também revolucionar o próprio ato de narrar. Partindo desse contexto, surge uma dúvida ligada à tradição: seria possível, então, trilhando esse caminho, chegar a uma obra prima? Tal questão pode intrinsecamente estar ligada à idéia de áurea, e, sua resposta pode ter um direcionamento muito simples, chavão até, que é o de que o objeto texto, independentemente do seu meio de divulgação, jamais se tornará obsoleto, ou seja, nada pode impedir que novas formas de contar histórias ganhem vida própria, sem necessariamente excluir as já existentes.
O aparecimento das novas tecnologias da informação talvez seja o que permite uma melhor classificação e reorganização do trabalho artístico. Quanto à literatura, por exemplo, o que existe é uma LITERATURA como um todo, e não especificamente uma literatura digital e outra não digital. O digital funcionaria assim como mais um apoio para a sua divulgação, arquivamento, editoração, leitura, consulta, análise, transformação em discurso interativo e inclusive para a sua comercialização, independentemente de seu valor estético ou não. A sua exposição no meio digital é que, através de uma seleção temporal, possibilitará sua auto-afirmação como boa ou ruim, isso poderá definir ou excluir sua áurea e o seu caráter ritual. A intenção grega de definir e estabelecer valores eternos para uma determinada obra será acompanhada não mais apenas pela apreciação de um grupo elitista, mas pelo processo de democratização
Acredito na possibilidade de emancipação da obra de arte, que sairá cada vez mais de seu contexto ritual através da facilidade da exposição. Os valores, os conceitos nunca foram e jamais serão estanques, visto que o aparelho possibilita ao homem contemporâneo ainda mais dinamicidade e interação. Finalmente, através da máquina, como afirmou Walter Benjamin, “a auto-alienação humana encontrou um aplicação altamente criadora”.
Azevedo_77