quarta-feira, 24 de junho de 2009

Quem seguir ou quem ler?




Esses dias, navegando nesse universo de colunas e blogs, me deparei com o frase "Dez pessoas para se seguir", em uma alusão ao fenômeno twitter que se baseia em seguidos e seguidores. Interessantemente, o texto de Cavalcanti não se refere a usuários do twitter, mas a escritores e artistas que de uma maneira ou de outra marcaram a cultura e fizeram história.
Seu tom é de puro reconhecimento ao que há de mais artístico e valorizado e ainda, por que não dizer, uma crítica velada aos fenômenos midiáticos que para alguns, pouco ou nenhum valor estético acrescentam às artes em geral. Mas acho que foi só uma impressão minha. Qual foi a sua?

"Dez pessoas para se seguir"

Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 16/6/2009

Baudelaire reivindicava pra si o direito de "escolher seus irmãos". Eu reivindico o direito de escolher os homens aos quais seguirei pela vida. Mestres do encantamento e do desencantamento, pensadores e/ou artistas que são, formam a família que eu escolhi para habitarem meus pensamentos e minha pátria verdadeira: o reino das ideias.

A cultura não é somente o reino da paz, mas também e principalmente uma zona de grandes tormentas. E é dentro dela que me viro e reviro abraçado às obras de literatura, música, filosofia, artes plásticas e ciências humanas em geral.

Leonardo da Vinci é mundialmente conhecido por causa de sua Mona Lisa. No entanto, pouco compreendido e pouco estudado, quase ninguém conviveu com ele profundamente, ao contrário, apenas o conheceram num nível muito superficial. Paul Valéry sabia o valor do mestre renascentista. Fez sobre ele um livro, Introdução ao método de Leonardo da Vinci, no qual diz o seguinte: "o que fica de um homem é o que nos levam a pensar seu nome e as obras que fazem desse nome um signo de admiração, de ódio ou indiferença". No caso de Leonardo, admiração. Talvez o mais respeitável pensamento que podemos ter sobre ele é o de que não só sua obra é de uma grandiosidade inimitável, como também a atitude que teve com o conhecimento, a arte e a busca pelo entendimento da natureza é um procedimento raro dentro da história da civilização humana. Apaixonado por tudo que o rodeava, tentava absorver e desenvolver pensamentos e práticas de conhecimento relacionando todas as áreas do conhecimento. O resultado é estrondoso em todos os campos do conhecimento. Não cabe aqui relatar esses resultados, mas para quem se interessar por um aprofundamento indico os autores seguintes (todos traduzidos no Brasil, para nossa felicidade) que estudaram Da Vinci: Kenneth Clark, Michael White, Richard Friedenthal, Fritjof Capra, Sherwin Nuland e Martin Kemp, só para começar.

Franz Kafka escreveu longas cartas a Felícia, sua noiva, tentando explicar-lhe que tudo o que não é literatura o enfadava, inspira-lhe tédio mortal. Construiu uma das mais ousadas obras da literatura do século XX, mostrando a quem quiser ver que dado o nível burocrático que chegamos não passamos de insetos ou delirantes seres rodeados por poderes dos quais não controlamos nem uma ínfima parte. E quem ousar abandonar o modus vivendi determinado pelo aparelho burocrático será reduzido a um inseto que, no mínimo, será eliminado. O que é terrível é ele dizer claramente para todos: "vocês não são mais humanos, apenas insetos". Autor de obras como A metamorfose, O processo e Colônia penal, dentre outras tantas, suas narrativas podem ser definidas segundo a frase de T. W. Adorno: "o que choca não é o monstruoso, mas sua evidência". Sobre seus personagens podemos dizer, usando as palavras do próprio Kafka: "nós provavelmente somos de todos os seus semelhantes os mais chegados a você" (O processo).

O poeta Rainer Maria Rilke é conhecido pela obra Cartas a um jovem poeta, onde vaticinava: "basta sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo". Poeta que escrevia por necessidade existencial e não para "terminar na imprensa", descortinou reinos inusitados da linguagem poética que engrandeceram a sensibilidade humana. Como podemos ficar indiferentes a poemas como "Pietà", onde a referência a Michelângelo encontra aquela grandeza reclamada por Kant de um gênio enviando uma mensagem a outro gênio. Parafraseando Heidegger, podemos dizer que só existe realmente mundo onde está a verdadeira poesia. É o que Rilke nos sugere.

Sigmund Freud nos mostrou que mais do que seres culturais somos animais presos às condições determinadas pelo desejo e pela natureza. Escravos da fome, do sono, da sede e do desejo sexual, o animal humano tornou-se um neurótico tentando driblar a satisfação básica desses desejos criando o artifício controlador da cultura. O resultado, concluiu, é uma civilização do descontentamento. As indústrias dos calmantes, da pornografia, da guerra estão aí para provar.

Mozart fez da música a extensão da sensibilidade humana nos seus momentos mais profundos, seja na alegria (Dom Giovanni) ou no terror (Réquiem), ou nos dois juntos (A Flauta Mágica). O compositor nos ensinou que do timbre e do ritmo de uma música podem derivar a solenidade, a majestosidade, o drama, o estarrecimento, a ternura, a jovialidade e, sobretudo, a beleza absoluta. Mozart, como disse Norbert Elias, tinha acentuada capacidade de criar inovações que comunicavam uma mensagem potencial aos outros, produzindo neles ressonâncias, como se ao entrar na alma de alguém o pusesse naturalmente para sonhar com os maravilhosos mundos por ele criado.

Marcel Proust nos ensinou que o amor vive da falta, dela se alimentando com voracidade. Mostrou que a verdadeira memória é o do acontecimento no qual você estava tão envolvido que não percebeu. A memória é a vida. E a vida, realmente vivida, é a vida literária, lugar de onde se descortina a essência humana na sua mais profunda significação.

Friedrich Nietzsche admirava em Byron o fato do poeta ter transformado a sua própria vida em uma obra de arte; para o filósofo alemão o existir e o mundo só se justificam eternamente como fenômeno estético. Ao ouvir a música de Wagner, dizia: "cada fibra, cada nervo meu estremece". Para Nietzsche a música é a experiência estética por excelência, pois ela é uma atividade onde a liberdade é absoluta, pois prescinde do conceito. Nietzsche ensinou que somos mais entranhas que pensamento. Acabou educando Freud e a todos nós.

Para Karl Marx a história da humanidade é a história da luta do homem pela liberdade. E a liberdade por ele sonhada é a busca para se escapar da necessidade. "O reino da liberdade começa onde termina o reino da necessidade". Em termos de mundo contemporâneo, talvez o reino da liberdade seja o reino do tempo livre, aquele que você não vende. Ou você não tem tempo para pensar sobre isso, caro leitor?

Roland Barthes dizia que "as transgressões da linguagem possuem um poder de ofensa pelo menos tão forte quanto o das transgressões morais". E os grandes mestres são, antes de tudo, todos eles, mestres da renovação da linguagem. Como dizia Mallarmé, "não conheço outra bomba além de um livro". Barthes nos ensinou que a língua é poder, mas que a écriture, o momento onde a linguagem vira poesia, é liberdade. E a liberdade, para o leitor, é o prazer de ler.

(by Drummond_9)

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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Heróis


Não tenho ídolos. Infelizmente. Já tentei me apaixonar por algumas pessoas, mas depois de 5 minutos googleando, desisto. Sejamos realistas: nos dias atuais, com tantos enganos e engodos, tá difícil arranjar alguém em quem se inspirar.

Um amigo me sugeriu que eu pegasse as partes especiais de cada um criando um andrógeno, parecido com o Edward Mãos de Tesoura. O filme, um conto de fadas moderno, mostra claramente que criar andrógeno não é a melhor solução, eles sofrem. Os filmes e a literatura mostram esse conflito. Ninguém os aceita, e pior os entende.

Difícil, não? Não posso decepar as melhores partes de cada pessoa e, também, não posso aceitar as falhas delas.

Ao idolatrar os personagens de filmes, quadrinhos e televisão, acabei satisfazendo minha carência por ídolos. Cada um pode me ensinar uma coisa e cada fraqueza, quando descubro, me força a ver que ninguém é imbatível. Melhor assim do que criar um Frankenstein.

Caro leitor, não venha me dizer que minha estratégia é a mesma de criar um andrógeno ou um monstro (dependendo do ponto de vista), porque não é. Já é tudo fictício mesmo…

Peguemos o exemplo do Super-Homem, o meu favorito. Para começar, ele é o único super-herói que acorda super-herói e só precisar colocar a fantasia para ninguém perceber quem é ele (já o Batman, por outro lado, precisa vestir os mais variados apetrechos para ser super-herói). O sentimento é muito altruísta e ele não persegue a glória. Depois, na maioria das histórias, não basta supervelocidade, visão fora do comum ou força suficiente para parar uma locomotiva. Ele precisa vencer a criptonita, demonstrando força de vontade e um desejo real de salvar o mundo.

Outro que eu não poderia esquecer é o detetive Tintin. Seu criador conta histórias do investigador em todas as partes do mundo. Mais curioso é que ele nunca saiu da França para escrevê-las. Já o impressionante é que Tintin resolve todos os problemas usando a inteligência e não a força.

Esses personagens demonstram que a justiça, a lealdade, a força de vontade devem prevalecer sobre o egoísmo, a preguiça e a covardia.

Provavelmente neonazistas e outros grupos xenófobos não devem ter tido a oportunidade de ler ou assistir desenhos enquanto crianças. Caso contrário, não agiriam com tamanha agressividade.

Pelo contrário, eles devem ter se inspirado em ídolos como Hitler e Stálin, que mataram milhões em prol de uma sociedade mais “limpa” ou “justa”. Acho, que na verdade, esses grupos não só não leram meus heróis favoritos, como faltaram às aulas de história, que conta que o racismo não é o melhor modo para se resolver problemas.

Enquanto não arranjo um ídolo por aqui, deixo vocês pensando nas histórias infantis e no mundo mágico que viveríamos se tivéssemos um pouco dos princípios de nossos heróis favoritos.

E nunca se esqueçam: para o alto e avante!


Daniel Bushatsky
10/6/2009 às 17h55

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