quarta-feira, 24 de junho de 2009

Quem seguir ou quem ler?




Esses dias, navegando nesse universo de colunas e blogs, me deparei com o frase "Dez pessoas para se seguir", em uma alusão ao fenômeno twitter que se baseia em seguidos e seguidores. Interessantemente, o texto de Cavalcanti não se refere a usuários do twitter, mas a escritores e artistas que de uma maneira ou de outra marcaram a cultura e fizeram história.
Seu tom é de puro reconhecimento ao que há de mais artístico e valorizado e ainda, por que não dizer, uma crítica velada aos fenômenos midiáticos que para alguns, pouco ou nenhum valor estético acrescentam às artes em geral. Mas acho que foi só uma impressão minha. Qual foi a sua?

"Dez pessoas para se seguir"

Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 16/6/2009

Baudelaire reivindicava pra si o direito de "escolher seus irmãos". Eu reivindico o direito de escolher os homens aos quais seguirei pela vida. Mestres do encantamento e do desencantamento, pensadores e/ou artistas que são, formam a família que eu escolhi para habitarem meus pensamentos e minha pátria verdadeira: o reino das ideias.

A cultura não é somente o reino da paz, mas também e principalmente uma zona de grandes tormentas. E é dentro dela que me viro e reviro abraçado às obras de literatura, música, filosofia, artes plásticas e ciências humanas em geral.

Leonardo da Vinci é mundialmente conhecido por causa de sua Mona Lisa. No entanto, pouco compreendido e pouco estudado, quase ninguém conviveu com ele profundamente, ao contrário, apenas o conheceram num nível muito superficial. Paul Valéry sabia o valor do mestre renascentista. Fez sobre ele um livro, Introdução ao método de Leonardo da Vinci, no qual diz o seguinte: "o que fica de um homem é o que nos levam a pensar seu nome e as obras que fazem desse nome um signo de admiração, de ódio ou indiferença". No caso de Leonardo, admiração. Talvez o mais respeitável pensamento que podemos ter sobre ele é o de que não só sua obra é de uma grandiosidade inimitável, como também a atitude que teve com o conhecimento, a arte e a busca pelo entendimento da natureza é um procedimento raro dentro da história da civilização humana. Apaixonado por tudo que o rodeava, tentava absorver e desenvolver pensamentos e práticas de conhecimento relacionando todas as áreas do conhecimento. O resultado é estrondoso em todos os campos do conhecimento. Não cabe aqui relatar esses resultados, mas para quem se interessar por um aprofundamento indico os autores seguintes (todos traduzidos no Brasil, para nossa felicidade) que estudaram Da Vinci: Kenneth Clark, Michael White, Richard Friedenthal, Fritjof Capra, Sherwin Nuland e Martin Kemp, só para começar.

Franz Kafka escreveu longas cartas a Felícia, sua noiva, tentando explicar-lhe que tudo o que não é literatura o enfadava, inspira-lhe tédio mortal. Construiu uma das mais ousadas obras da literatura do século XX, mostrando a quem quiser ver que dado o nível burocrático que chegamos não passamos de insetos ou delirantes seres rodeados por poderes dos quais não controlamos nem uma ínfima parte. E quem ousar abandonar o modus vivendi determinado pelo aparelho burocrático será reduzido a um inseto que, no mínimo, será eliminado. O que é terrível é ele dizer claramente para todos: "vocês não são mais humanos, apenas insetos". Autor de obras como A metamorfose, O processo e Colônia penal, dentre outras tantas, suas narrativas podem ser definidas segundo a frase de T. W. Adorno: "o que choca não é o monstruoso, mas sua evidência". Sobre seus personagens podemos dizer, usando as palavras do próprio Kafka: "nós provavelmente somos de todos os seus semelhantes os mais chegados a você" (O processo).

O poeta Rainer Maria Rilke é conhecido pela obra Cartas a um jovem poeta, onde vaticinava: "basta sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo". Poeta que escrevia por necessidade existencial e não para "terminar na imprensa", descortinou reinos inusitados da linguagem poética que engrandeceram a sensibilidade humana. Como podemos ficar indiferentes a poemas como "Pietà", onde a referência a Michelângelo encontra aquela grandeza reclamada por Kant de um gênio enviando uma mensagem a outro gênio. Parafraseando Heidegger, podemos dizer que só existe realmente mundo onde está a verdadeira poesia. É o que Rilke nos sugere.

Sigmund Freud nos mostrou que mais do que seres culturais somos animais presos às condições determinadas pelo desejo e pela natureza. Escravos da fome, do sono, da sede e do desejo sexual, o animal humano tornou-se um neurótico tentando driblar a satisfação básica desses desejos criando o artifício controlador da cultura. O resultado, concluiu, é uma civilização do descontentamento. As indústrias dos calmantes, da pornografia, da guerra estão aí para provar.

Mozart fez da música a extensão da sensibilidade humana nos seus momentos mais profundos, seja na alegria (Dom Giovanni) ou no terror (Réquiem), ou nos dois juntos (A Flauta Mágica). O compositor nos ensinou que do timbre e do ritmo de uma música podem derivar a solenidade, a majestosidade, o drama, o estarrecimento, a ternura, a jovialidade e, sobretudo, a beleza absoluta. Mozart, como disse Norbert Elias, tinha acentuada capacidade de criar inovações que comunicavam uma mensagem potencial aos outros, produzindo neles ressonâncias, como se ao entrar na alma de alguém o pusesse naturalmente para sonhar com os maravilhosos mundos por ele criado.

Marcel Proust nos ensinou que o amor vive da falta, dela se alimentando com voracidade. Mostrou que a verdadeira memória é o do acontecimento no qual você estava tão envolvido que não percebeu. A memória é a vida. E a vida, realmente vivida, é a vida literária, lugar de onde se descortina a essência humana na sua mais profunda significação.

Friedrich Nietzsche admirava em Byron o fato do poeta ter transformado a sua própria vida em uma obra de arte; para o filósofo alemão o existir e o mundo só se justificam eternamente como fenômeno estético. Ao ouvir a música de Wagner, dizia: "cada fibra, cada nervo meu estremece". Para Nietzsche a música é a experiência estética por excelência, pois ela é uma atividade onde a liberdade é absoluta, pois prescinde do conceito. Nietzsche ensinou que somos mais entranhas que pensamento. Acabou educando Freud e a todos nós.

Para Karl Marx a história da humanidade é a história da luta do homem pela liberdade. E a liberdade por ele sonhada é a busca para se escapar da necessidade. "O reino da liberdade começa onde termina o reino da necessidade". Em termos de mundo contemporâneo, talvez o reino da liberdade seja o reino do tempo livre, aquele que você não vende. Ou você não tem tempo para pensar sobre isso, caro leitor?

Roland Barthes dizia que "as transgressões da linguagem possuem um poder de ofensa pelo menos tão forte quanto o das transgressões morais". E os grandes mestres são, antes de tudo, todos eles, mestres da renovação da linguagem. Como dizia Mallarmé, "não conheço outra bomba além de um livro". Barthes nos ensinou que a língua é poder, mas que a écriture, o momento onde a linguagem vira poesia, é liberdade. E a liberdade, para o leitor, é o prazer de ler.

(by Drummond_9)

Stumble Upon Toolbar

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Heróis


Não tenho ídolos. Infelizmente. Já tentei me apaixonar por algumas pessoas, mas depois de 5 minutos googleando, desisto. Sejamos realistas: nos dias atuais, com tantos enganos e engodos, tá difícil arranjar alguém em quem se inspirar.

Um amigo me sugeriu que eu pegasse as partes especiais de cada um criando um andrógeno, parecido com o Edward Mãos de Tesoura. O filme, um conto de fadas moderno, mostra claramente que criar andrógeno não é a melhor solução, eles sofrem. Os filmes e a literatura mostram esse conflito. Ninguém os aceita, e pior os entende.

Difícil, não? Não posso decepar as melhores partes de cada pessoa e, também, não posso aceitar as falhas delas.

Ao idolatrar os personagens de filmes, quadrinhos e televisão, acabei satisfazendo minha carência por ídolos. Cada um pode me ensinar uma coisa e cada fraqueza, quando descubro, me força a ver que ninguém é imbatível. Melhor assim do que criar um Frankenstein.

Caro leitor, não venha me dizer que minha estratégia é a mesma de criar um andrógeno ou um monstro (dependendo do ponto de vista), porque não é. Já é tudo fictício mesmo…

Peguemos o exemplo do Super-Homem, o meu favorito. Para começar, ele é o único super-herói que acorda super-herói e só precisar colocar a fantasia para ninguém perceber quem é ele (já o Batman, por outro lado, precisa vestir os mais variados apetrechos para ser super-herói). O sentimento é muito altruísta e ele não persegue a glória. Depois, na maioria das histórias, não basta supervelocidade, visão fora do comum ou força suficiente para parar uma locomotiva. Ele precisa vencer a criptonita, demonstrando força de vontade e um desejo real de salvar o mundo.

Outro que eu não poderia esquecer é o detetive Tintin. Seu criador conta histórias do investigador em todas as partes do mundo. Mais curioso é que ele nunca saiu da França para escrevê-las. Já o impressionante é que Tintin resolve todos os problemas usando a inteligência e não a força.

Esses personagens demonstram que a justiça, a lealdade, a força de vontade devem prevalecer sobre o egoísmo, a preguiça e a covardia.

Provavelmente neonazistas e outros grupos xenófobos não devem ter tido a oportunidade de ler ou assistir desenhos enquanto crianças. Caso contrário, não agiriam com tamanha agressividade.

Pelo contrário, eles devem ter se inspirado em ídolos como Hitler e Stálin, que mataram milhões em prol de uma sociedade mais “limpa” ou “justa”. Acho, que na verdade, esses grupos não só não leram meus heróis favoritos, como faltaram às aulas de história, que conta que o racismo não é o melhor modo para se resolver problemas.

Enquanto não arranjo um ídolo por aqui, deixo vocês pensando nas histórias infantis e no mundo mágico que viveríamos se tivéssemos um pouco dos princípios de nossos heróis favoritos.

E nunca se esqueçam: para o alto e avante!


Daniel Bushatsky
10/6/2009 às 17h55

Stumble Upon Toolbar

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A Não-Linearidade

Quem diria os caminhos que a literatura ia tomar. Pensar uma obra literária, construída fora de um plano linear e de uma continuidade lógica e racional, é incrível. Finalmente, estamos nos distanciando dos limites e dos grilhões da lógica sequencial. O hipertexto rompeu com as limitações da linearidade textual e o mundo digital deu um novo significado a literatura. Estar livre para criar, estar livre para ordenar: tudo isso é fascinante para mim.
Breton888

Stumble Upon Toolbar

terça-feira, 12 de maio de 2009

Arte no Mundo Virtual

Durante séculos a circulação de obras dependia exclusivamente da impressão de monarcas e, mais recentemente, do mercado editorial. A recepção da arte era verificada pelo valor culto e de exposição. Desse modo, as obras eram consideradas arte dependendo dessas impressões e somente a partir delas eram lançadas no mercado. Era muito baixo o volume de obras que circulavam sem o crivo editorial.
Com o uso da tecnologia eletrônica a circulação de obras torna-se muito mais fácil. Além disso, com a reprodutibilidade técnica, as obras perdem a singularidade, deixam de ser únicas e passam a ser percebidas de maneira diferente. Ora, as obras que circulam no meio virtual, em geral, perdem sua autenticidade e passam a circular sem muitos critérios, mas ao mesmo tempo, permitem que muitas idéias e críticas sejam disseminadas.
Desse modo, a arte no mundo virtual traz uma nova forma de pensamento em relação à propriedade intelectual e ao conceito de plágio.
Para alguns artistas, esse tipo de arte tem possibilitado marcar uma nova identidade e criticar o discurso dominante.
Meireles

Stumble Upon Toolbar

quinta-feira, 7 de maio de 2009

QUEREM MINHA LICENÇA? DOU-LHA!!!

Quando iniciei meus tímidos passos pelas veredas insondáveis da poesia, jamais imaginava os rumos que a arte poética viria a tomar. Minha alma em cinzas buscava, apenas, refúgio para suas dores no universo maravilhoso e nostálgico do sonho. Durante minha existência, eram os textos literários embargados, sim, de uma aura sagrada que jamais se acreditava poder ser modificada. Manusear as páginas de um livro muitas vezes já puído pelo tempo tinha algo de ritualístico e sedutor, como um transportar-se de uma semi-vida para a existência completa num plano ficcional em que as dores não cessavam de todo; ao contrário, tornavam-se divinas. Porém, hoje, mais de setenta anos após minha estada sobre a terra, percebo que nem tudo mudou...É-me irônica a consciência de que, mesmo após décadas e décadas de suposta evolução, os homens continuam com as mesmas dores e os mesmos conflitos interiores a lhes abrasarem a alma como faziam comigo. E tudo o que almejo é que minha voz se dissemine, mesmo após minha morte, para que outros encontrem em minhas mágoas as suas próprias e, talvez, também, algum bálsamo que lhes alivie a dura pena de viver. Por isso, é-me profundamente prazeroso perceber como os meios a que hoje chamam "digitais" disseminam e democratizam minha obra. Embora por instrumentos diferentes daqueles que se usava em minha época, toda minha vida posta em versos, bem como a daqueles que me precederam e vieram depois de mim circula livremente pelas malhas da virtualidade, esperando ser contemplada, discutida, questionada... Perguntam-me, agora, se penso na possibilidade de meus textos perderem sua sacralidade? E eu lhes respondo: seu valor - se é que existe algum -, para mim, reside também em sua circulação. A isso me dediquei e nisso me apego. Que sejam lidos por todos, compreendidos por alguns, talvez respeitados por nenhum...porém que sejam lidos!!!!Espanca16

Stumble Upon Toolbar

A obra de arte na era digital

Com o advento da internet, aumenta, nos últimos anos, a preocupação com a esfera da autenticidade da obra de arte. A tentativa de valorar e reafirmar seus princípios fundados na tradição como condição primeira de perpetuá-la é seguida também do conceito de áurea. Essa atualização é permitida graças à evolução tecnológica que acompanha os grandes períodos históricos, possibilitando uma leitura mais perceptível da obra de arte, saindo do âmbito individual de apreciação ritualística para o âmbito coletivo e político. O seu fundamento teológico, de um valor de culto, passa a ter um valor de exposição.
No caso específico da literatura, a tentativa de fundi-la com a internet se torna, para muitos, uma obsessão. O uso de ferramentas digitais pode não somente divulgar os textos de forma linear, como também revolucionar o próprio ato de narrar. Partindo desse contexto, surge uma dúvida ligada à tradição: seria possível, então, trilhando esse caminho, chegar a uma obra prima? Tal questão pode intrinsecamente estar ligada à idéia de áurea, e, sua resposta pode ter um direcionamento muito simples, chavão até, que é o de que o objeto texto, independentemente do seu meio de divulgação, jamais se tornará obsoleto, ou seja, nada pode impedir que novas formas de contar histórias ganhem vida própria, sem necessariamente excluir as já existentes.
O aparecimento das novas tecnologias da informação talvez seja o que permite uma melhor classificação e reorganização do trabalho artístico. Quanto à literatura, por exemplo, o que existe é uma LITERATURA como um todo, e não especificamente uma literatura digital e outra não digital. O digital funcionaria assim como mais um apoio para a sua divulgação, arquivamento, editoração, leitura, consulta, análise, transformação em discurso interativo e inclusive para a sua comercialização, independentemente de seu valor estético ou não. A sua exposição no meio digital é que, através de uma seleção temporal, possibilitará sua auto-afirmação como boa ou ruim, isso poderá definir ou excluir sua áurea e o seu caráter ritual. A intenção grega de definir e estabelecer valores eternos para uma determinada obra será acompanhada não mais apenas pela apreciação de um grupo elitista, mas pelo processo de democratização
Acredito na possibilidade de emancipação da obra de arte, que sairá cada vez mais de seu contexto ritual através da facilidade da exposição. Os valores, os conceitos nunca foram e jamais serão estanques, visto que o aparelho possibilita ao homem contemporâneo ainda mais dinamicidade e interação. Finalmente, através da máquina, como afirmou Walter Benjamin, “a auto-alienação humana encontrou um aplicação altamente criadora”.
Azevedo_77

Stumble Upon Toolbar

sábado, 2 de maio de 2009

DOU PORQUE EU QUERO

Postado por baudelaire69

http://blog.uncovering.org/archives/uploads/2008/08011001_blog.uncovering.org_courbet.jpg

A origem do mundo - Coubert

Estava meio desanimado por um tempo e não sabia o que me afetava, mas já algum tempo, não tenho muito tempo pra pensar. Então essas garrafas de vinho(no meio da tarde) me deixaram fora do meu espaço, acho que estava embriagado... Fiquei bebâdo por um momento, como venho ficando, a olhar pra tela do computador e procurar alguma coisa pornográfica. Mas encontrei algo interessante... olhando em alguns links perdidos no (m)eu computador achei uma poesia que na época achei bem interessante de uma tal, "Medusa impune", a poesia chama - Perdendo a virgindade, e fiquei impressionado com a proliferação de "blogs" como esse onde pessoas estão produzindo materiais literários todos os dias. Acho que em breve montarei um também, mas só depois da ressaca...

Perdendo a virgindade

A verdade
É que eu não sou a virgem pura
Que lhe pareço ser.

Este mundo já me fodeu tanto
Que seria uma puta hipocrisia
Dizer o contrário.

Mas foi só agora,
Que percebi todo esse sangue,
Já seco e duro,
Quebrando o lençol.

Tanto vermelho!
Já vinho,
Já negro...
Me faz crer que pereci
De agudas dores.
Mas, na hora,
Eu nem senti.

Acho que foi isso
Que o fez voltar todas as noites:
A minha ignorância.

Sinto muito, meu amor,
Mas eu não sou mais sua inocente prostituta.
Agora,
Eu dou porque quero.


Patrícia Colmenero,
A Medusa impune.

Fica ai o blog dela , caso se interessem...
http://medusaimpune.blogspot.com/search?updated-min=2008-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&updated-max=2009-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&max-results=19

Stumble Upon Toolbar

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A obra de arte como procedimento ritual


Em uma das discussões que se vê diante da problemática, se é que podemos denominar assim, ao nos depararmos com as relações entre literatura e hipertexto, está presente e se torna atual no texto de Walter Benjamin, "A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica" (1955), em que podemos nos colocar em xeque ao tratarmos da arte como manifestação de alto valor estético diante do que nos é configurado pelo autor ao tratar da fotografia e do cinema. Isso nos leva a refletir, em se tratando das tendências atuais, sobre como observar a obra de arte digital como procedimento ritual. Pois bem. Se considerarmos o processo ritual como sendo um procedimento de copiagem e transmissão a envolver um número cada vez maior de artistas, por assim dizer, a obra de arte digital vem a corroborar o fato de que este objeto artístico atinge ou atingirá cada vez mais e mais pessoas com acesso a essas manifestações. Logo, podemos entender que a era digital vem ao mesmo tempo em que dissemina e "descentraliza" a obra de arte, também a coloca sob a condição de submissão no sentido em que se trata de um meio vulnerável e que questiona o próprio valor do culto ou do valor estético. O procedimento ritual estará sempre presente e evoluindo a medida em que a sociedade e os conceitos também vão se modificando, seja para o bem da obra em si ou para sua ruína, embora mesmo "a voz de autoridade" sobre o que é ou não obra de arte é sempre questionável. Enquanto essas questões ficam nos colocando diante de mais indagações que nos levarão a outras e mais outras, tentamos entender como e até onde a arte, sobretudo a literária, continua sendo objeto inacessível e perpassado por uma aura divina, cujo meio digital vem modificando nos últimos anos.

(By Drummond_9)

Stumble Upon Toolbar

II

Lembro-me com saudades daquele dia
Em que li um livro de um filósofo da França
Que meu tio professor esqueceu em casa.

Como era bobo aquele homem
Que achava mais fácil provar que Deus era uma cousa
Do que ter certeza que as cousas todas não eram um sonho.
Eu lembro-me de rir de tudo aquilo como uma criança,
Porque rir daquilo é natural quando se é criança.

E hoje eu vi passar aquele filósofo pelo caminho do Céu
Procurando Deus para conversar sobre seus pensamentos.
Que pena me deu vê-lo andando para lá e para cá
Perguntando a todos os santos onde estava Deus
Sem conseguir uma resposta.

Pois a única coisa que os homens queriam
Quando chegassem ao Céu era ver Deus,
Do mesmo jeito que quando vivos eles viam as flores, as pedras e os montes.
Por isso que os homens acreditavam em Deus sem vê-lo,
Como os filósofos acreditavam naquela cousa que não se vê nas cousas.

E me pus a pensar como é triste que os homens
Precisam morrer para descobrir a verdade
Que quando vivos não encontraram,
E que isso faz com que, para os vivos,
Nenhuma verdade faça sentido,
E que o grande sentido de viver não é descobrir
As verdade escondidas das cousas,
Mas olhar para cada cousa
Sem pensar nas suas verdades.

E eu descubro isso e me sinto triste como um homem vivo
Porque aqui eu não tenho as cousas,
Mas tão somente essas verdades menores,
sem cheiro e sem cor.

Stumble Upon Toolbar

I

Há uma cousa que não se vê, e por isso não é uma cousa.
Morrer é fechar os olhos.
A morte é cheia de verdades e vazia de realidades.

Quando eu ficava doente, pensava.
Mas era natural que pensasse,
Porque a maior doença é pensar.

Quando eu pensava demais, saía de dentro de casa
E escrevia versos deitado na grama
E ficava feliz quando cheirava uma flor e esquecia de tudo isso.

Estar morto é diferente.
Estar morto é só pensar, mas sem ter a grama para curar-se.
E se morto eu esquecer de pensar,
Fico mais longe ainda das cousas,
e mais triste das idéias.

Eu aqui estou sempre doente,
Porque sei que as cousas estão lá na natureza
Mesmo quando não as vejo.

Antes eu podia só ver, e pensava sobre não pensar,
E agora ver é tudo o que não posso,
E tudo o que penso é uma lembrança do que antes eu via sem lembrar.

Se aqui eu tivesse olhos, veria.
Como não os tenho, choro.

Porque tudo o que eu queria agora
era apenas não existir.

Stumble Upon Toolbar

quinta-feira, 2 de abril de 2009

"A literatura em perigo".... será?


No ensaio "Dentro da Baleia", publicado no livro de mesmo nome, George Orwell, ao comentar sobre a produção literária do início do século XX, diz que "nos círculos cultos [da Inglaterra], a arte pela arte se estendeu praticamente a uma adoração do sem sentido. Julgar um livro pelo assunto era um pecado imperdoável, e mesmo estar ciente desse assunto era considerado um deslize de bom gosto".

Além de escritor de ficção, Orwell foi também um sagaz resenhista, que não poupava seus pares na hora de tecer críticas. O que Orwell na verdade reclama em grande parte do texto, que é dedicado à análise de Trópico de Câncer, de Henry Miller, é de como as inovações técnicas que floresciam na literatura de então (com nomes como James Joyce) limitavam o diálogo das obras com o mundo real e com os problemas imediatos da sociedade. Ou, conforme Orwell escreve, de "como as inovações técnicas, ainda que importantes, estão presentes primeiramente para servir a esse propósito".

Entre outros assuntos, é disso que trata A literatura em perigo (Difel, 2009, 96 págs.), mais recente livro do historiador e ensaísta búlgaro Tzvetan Todorov. Em uma linguagem que mistura reminiscências pessoais do autor à sua experiência como professor nas universidades e escolas da França, onde vive desde os anos 1960, o ensaio não agrada apenas por passear por clássicos da literatura. A "arte pela arte", que tanto incomodava Orwell lá nos anos 1940, é o ponto central do ensaio de Todorov, que, diferentemente de Orwell, direciona suas críticas não aos escritores, mas a professores e universidades que preferem ensinar métodos literários ao invés de focar seus esforços em aproximar o estudante das obras literárias.

Em uma crítica ao estruturalismo e às correntes formalistas que se tornaram moda nos anos 1970 e que acabaram se impondo como modelo dominante do ensino da literatura, o ensaio de Todorov se opõe à prática de ensino em que os "estudos literários têm como objetivo primeiro o de nos fazer conhecer os instrumentos dos quais se servem e não o contrário". Ou seja, as formulações críticas e apreciações analíticas dos especialistas, críticos e professores se sobrepõem à própria significação das obras e de como elas dialogam com a vida real.

"Ler poemas e romances não conduz à reflexão sobre a condição humana, sobre o indivíduo e a sociedade, o amor e o ódio, a alegria e o desespero, mas sobre noções críticas, tradicionais ou modernas. Na escola, não aprendemos acerca do que falam as obras, mas sim do que falam os críticos", diz o autor.

Esse cenário descrito por Todorov é o da escola francesa. Mas se encaixa perfeitamente em nossa realidade, em que a literatura para um jovem prestes a entrar na faculdade é apenas um calhamaço de resumos, previamente elaborado por experts, contendo todas as dicas necessárias para que o objetivo maior, a vaga na universidade, seja alcançado. É a prova mais evidente do fracasso da literatura como disciplina escolar. O que relega à literatura um papel secundário na formação intelectual do jovem, muito mais influenciado pela televisão, cinema e música.

E isso é até fácil de entender, afinal de contas, para a maioria dos jovens estudantes, a literatura não significa uma forma de compreensão do mundo, mas sim algo abstrato que ao invés de aproximar o indivíduo de seus pares, afasta-o.

Assim, a literatura ganha facilmente a pecha de "coisa chata" entre jovens secundaristas e pré-universitários. E não é para menos, pois as questões formuladas nas provas de literatura dos vestibulares brasileiros são verdadeiros tratados herméticos que duelam palmo a palmo com os escritos mais obscuros de Walter Benjamin.

É conhecida a história do escritor João Ubaldo Ribeiro, que certa vez afirmou a um entrevistador que não saberia responder algumas das perguntas, de um vestibular federal, formuladas a partir de seu clássico Viva o povo brasileiro. Ou seja, a pergunta era tão complexa que nem mesmo quem escreveu o livro saberia responder. Imagine um estudante de 18 ou 19 anos ainda em formação.

É contra essa forma de "intelectualizar" a literatura que Todorov reclama. O autor combate a ideia de que a arte não tem ligação significativa com o mundo e que, portanto, a literatura deve ser reduzida apenas a seus aspectos literários, falando exclusivamente para si mesma. E é desse perigo que se refere o título do ensaio. Do perigo de ver a literatura não mais como protagonista do processo educacional, mas apenas como alicerce de teorias. Pois, afinal, qual é o propósito da literatura? Para essa pergunta, Todorov tem várias e apaixonadas respostas.

"A literatura pode muito. Ela pode nos estender a mão quando estamos profundamente deprimidos, nos tornar ainda mais próximos dos outros seres humanos que nos cercam, nos faz compreender melhor o mundo e nos ajuda a viver".

A reflexão de Todorov acerca do ensino da literatura nas universidades vai de encontro a um problema comum às nossas escolas: alunos entram na faculdade de letras com o único objetivo de se especializar em determinada língua estrangeira ou de serem professores de português. Decisão, claro, que a grade curricular do curso ajuda a corroborar. Assim, a literatura em seu estado bruto ― leia-se a leitura de romances, peças, contos etc. ― fica relegada a um segundo plano. Isso afetará diretamente a forma ― fria, imagina-se ― com que os alunos desses educadores vão se relacionar com a literatura.

Estudar os métodos utilizados, com grande maestria, por Dostoiévski para conceber obras como Crime e castigo ou O idiota certamente é de grande serventia para compreender os meandros da escrita do gênio russo. Mas a leitura de seus romances provavelmente explicará mais sobre a gênese de sua obra do que qualquer estudo crítico. E é essa a mensagem que Todorov nos deixa: a literatura é simples, e por isso tão bela.

Texto de
Luiz Rebinski Junior
(Fonte: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=2771)

Stumble Upon Toolbar