Quando iniciei meus tímidos passos pelas veredas insondáveis da poesia, jamais imaginava os rumos que a arte poética viria a tomar. Minha alma em cinzas buscava, apenas, refúgio para suas dores no universo maravilhoso e nostálgico do sonho. Durante minha existência, eram os textos literários embargados, sim, de uma aura sagrada que jamais se acreditava poder ser modificada. Manusear as páginas de um livro muitas vezes já puído pelo tempo tinha algo de ritualístico e sedutor, como um transportar-se de uma semi-vida para a existência completa num plano ficcional em que as dores não cessavam de todo; ao contrário, tornavam-se divinas. Porém, hoje, mais de setenta anos após minha estada sobre a terra, percebo que nem tudo mudou...É-me irônica a consciência de que, mesmo após décadas e décadas de suposta evolução, os homens continuam com as mesmas dores e os mesmos conflitos interiores a lhes abrasarem a alma como faziam comigo. E tudo o que almejo é que minha voz se dissemine, mesmo após minha morte, para que outros encontrem em minhas mágoas as suas próprias e, talvez, também, algum bálsamo que lhes alivie a dura pena de viver. Por isso, é-me profundamente prazeroso perceber como os meios a que hoje chamam "digitais" disseminam e democratizam minha obra. Embora por instrumentos diferentes daqueles que se usava em minha época, toda minha vida posta em versos, bem como a daqueles que me precederam e vieram depois de mim circula livremente pelas malhas da virtualidade, esperando ser contemplada, discutida, questionada... Perguntam-me, agora, se penso na possibilidade de meus textos perderem sua sacralidade? E eu lhes respondo: seu valor - se é que existe algum -, para mim, reside também em sua circulação. A isso me dediquei e nisso me apego. Que sejam lidos por todos, compreendidos por alguns, talvez respeitados por nenhum...porém que sejam lidos!!!!Espanca16
Garanto a você, Florbela, que seu valor ultrapassa as linhas do tempo e, pelo que vejo agora, do espaço também...é o choro sentido e secreto de todas nós...
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Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!
Amantes de Florbela...